segunda-feira, 16 de abril de 2012
Revolução
Quem és tu para usar essa palavra? Revolução dizes tu. O cobarde. Não é coisa que combine com a tua voz. Com o teu rosto. Contigo. Comodista sim. Essa é a palavra que te espelha melhor. Comodista. Cobarde. Tantos cês. Cês e ses. Tantos ses. Se isto, se aquilo. Sempre foste de poucas atitudes e muitas palavras. Mas em ti não acredito mais. A mim não me convences. Porque palavras tens de sobra, mas a vida, nunca a viveste. Limitaste-te a passar por ela. Ou a deixa-la passar por ti. Na sombra. Comodista. Cobarde. Por isso não me venhas falar de revolução. De mudança. De novo. De diferente. Quando tu sempre foste o mesmo. Sempre serás. Revolução? Deixa-me rir.
Longe
Nunca estive não. Nunca estive tão longe de casa. Saudades. Imagens que se formam difusas. Perco-me. Não sei mais o que é real. Saudades. De quando tudo era fácil. Simples. Saudades. Agora pesadelos acordam-me. Arrancam-me dos meus sonhos. Arrancam-me os sonhos. A única coisa que certamente era só minha. Tirada. Roubada. Saudades. Tudo parece surgir. Acontecer. À minha volta em câmara lenta. Tão lenta. Demasiado lenta. Grito-lhes que se apressem. A urgência na minha voz é palpável. Mas não me ouvem. Eu não estou aqui. Estou longe. Muito longe de tudo isto. Sinto saudades. Tantas saudades. Afogo-me em saudades. Morro de saudades.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
sábado, 7 de abril de 2012
Pasmaceira
Perdida. Viajei até à terra da pasmaceira. Província. Chama-lhe o que quiseres. Com ou sem estatuto de cidade, Sines é uma espécie de fim de mundo. Bonito, sem dúvida. Boas praias, também. Mas estamos em Abril. Chove e está frio, mal dá para sair de casa. Férias? Sim. De praia? Pelo cano.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Flutuação
Ondas. Espuma. Rochas. Correntes
Areia. Calor. Sol. Nuvens.
Flutuo. Céu infinito acima de mim.
Flutuo. O sal prende-se-me à pele.
Flutuo. Flutuo. Flutuo.
Flutuo. Algas rodeiam-me.
Flutuo. Já não há calor.
Flutuo. Já não há sol, só nuvens.
Flutuo. Começa a chover, a trovejar.
Flutuo. Relâmpagos rasgam o céu infinito.
Flutuo. Aprecio esta nova atmosfera.
Já não flutuo. Afundo-me. Afundo-me.
Afundo-me.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Metropolitano
Quantidade de caras. Expressões. À minha frente vai uma vaidosa, uns 15 anos, 16 talvez. Na minha diagonal vai o experiente, uns 65 anos diria eu, cansado pela idade, pela vida. No banco ao lado vai o músico. Leva as orelhas tapadas, perdido no seu mundo, abana a cabeça ao ritmo da música. Junto à janela vai o comilão. Ainda não o vi sem uma bolacha na boca. Mas não é gordo não senhora, tem um ar atlético e até é engraçado. Passou agora o mendigo a pedir esmola. Não tive a bondade de o auxiliar, mas escrevo sobre ele, vai ser famoso. Já o é. Quem é que não conhece o pedinte careca da linha azul? O gorduxo com a mesma lenga lenga de sempre. Continuo em movimento. O comilão saiu em S. Sebastião. Estou no Marquês de Pombal, vão agora sair o músico e o experiente. Quantas caras novas invadem esta pequena lata. Outra vaidosa à minha frente. Agora sentou-se uma rapariga na minha diagonal a comer pipocas. Cheiram bem. Não tenho coragem de lhe pedir uma, mas bem queria. Avenida. Saiu a primeira vaidosa. Entrou um homem a quem poderia chamar de político. Não que o julgue mentiroso, mas tem a pose. E ao meu lado vai agora uma senhora com um bebé ao colo. Brincalhão o pequeno. Abana os braços com a chucha na boca. Baba-se todo e ri. Dizem que o futuro é das crianças. Pois eu deixo-o nas tuas mãos pequenote, que cheguei ao meu destino e é hora de sair. Baixa-Chiado.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Palavras
Palavras. Magoam. Elevam. Contentam. Palavras que inscrevem sorrisos, recortam lágrimas, forçam discussões. Palavras, tantas palavras. São as tuas palavras que mais gosto. Aquelas por que mais sofro. As que me prendem e me atiram em queda livre. As tuas palavras curtas, longas, sonoras. As tuas palavras que são a minha alegria e a minha dor. Mas o teu silêncio, esse é a minha decepção e o meu fim.
Diferença
A diferença. Fazes toda a diferença. És a diferença entre uma lágrima e um sorriso. Entre a ansiedade e a calma. A diferença. És a diferença. Quando estás estando, transbordas-me. Quando estás não estando, preenches-me. Mas quando não estás não querendo, corróis-me. Destróis-me. Quem foi que te deu tanto poder? Quem foi que te disse que era assim que tinha de ser? Quem foi? Diz-me. Porque fazes o que fazes? Tens algum propósito? Ou só o fazes por não saberes fazer de outra maneira? A diferença. Sim, tu fazes a diferença. És um espaço que não consigo preencher. Uma palavra que não consigo encontrar. És um não consigo. És a diferença. Tu fazes toda a diferença.
Violência
Injusto dizes tu? Quão irónico, penso eu, falou o fingidor. Sim, rio-me. De quê? De ti. Não me toques. Nem te atrevas. Sabes que tenho razão. Enerva-te à vontade, já perdeste esta guerra. Passaste limites, pisaste barreiras, foste onde não devias ter ido. Não grites. Não vale a pena. É tarde demais. Ouve com atenção. É este o som. Sim, o som do fim. O silêncio dos derrotados. Injusto dizes tu? Sou livre berro eu! Livre de ti.
domingo, 1 de abril de 2012
Metáforas
Roo-as. Roo-as até ao sabugo. Este nervoso que me obriga a roê-las. Inquietação. Continuo. Ouço estalar. Arranco. Puxo. Roo. Sei que me vou arrepender. Mas continuo. Mais um pouco. Outra. Umas atrás das outras. Com um pouco de flexibilidade tinha vinte, assim só tenho dez. Continuo. Quase no fim. Acabou-se. Roí tudo. Até a pele. Não me resta nada.
Entos e Oras
És um pensamento,
Foste um momento,
Nada mais que um fragmento,
Perdido na cápsula do tempo,
Ferida por dentro, por fora,
Refém dessa eterna hora.
Estilhaços
Desci baixo. Usei palavras obscenas. Chamei-te nomes. Ordinarices. Não esperava isso de mim. Perdi o controlo. Perdi a classe. Desfiz a pose. Era cristal. Agora sou cacos. Mas tu, tu eras tudo e agora és nada.
Pressa
Diz-me. Diz-me tudo agora. Neste instante que tenho pressa. Pressa de partir. De não mais te ver. Esses olhos que me magoam, essa pele que me queima, esse sorriso que me mente. Diz. Diz de uma vez. Não vês que tenho pressa? O que te falta? Pelo que esperas? Queres que implore? Não o farei. Sabes que não o farei. Vou-me embora neste instante se não me disseres o que tens a dizer. Pois não dizes? Falta-te a coragem? Então adeus. Já fui. Parti, sem ti.
Liverdades
Liverdades por onde apenas más-linguas passaram. Tanto escárnio. Que ódio. Que terra. Que gente. Que falta de quê? De tudo. Pois liverdades onde apenas mentiras havia. Havia que chegasse, de sobra, demais. Pois que somos livres já mo tinham dito. Para a verdade ou para a mentira, que eu tudo leio, que pelo menos haja liberdade. Mas essa de mentir eu não entendo. Cuidam que não os leio do mesmo modo? Que não percebo o que leio? Pois digo-lhe que entendo, entendo até bem demais, pois além de ler, avalio-lhes o carácter. Ou a falta dele, porque como vos disse, leio verdades e se a verdade for que há mentira então essa é a verdade que leio melhor, porque sou assim livre de vos maldizer suas más-linguas de sarjeta.
sábado, 31 de março de 2012
Faz-de-Conta
És o meu faz-de-conta preferido. Fazes de conta de tudo, é tudo o que fazes, fazer para ti, só fazer de conta. Fazer por fazer, fazer amor, fazer café, fazer a cama, fazer o jantar, para ti, só se for fazer que se faz, porque fazer de facto, só de conta. Nada te peço meu faz-de-conta porque sei que tudo o que por mim farias seria de conta, mas duma coisa tenho a certeza, não fazes de conta que me amas, isso é mesmo de verdade.
Fugitivos
Anda. Onde vamos? Ainda não decidi, mas vamos para longe que te quero só para mim. Mas temos pouco tempo. Não importa, nem que tivessemos apenas um segundo. Anda. Dá-me a mão. Tenho medo. Não tenhas, estou aqui. E se nos perdermos? Não te preocupes, há muitos caminhos para o sítio onde vamos. E como sabes qual é o certo? Não sei, mas aí é que está a diversão.
Ela morreu
Morreu. Morreu? Morreu como? Não sei bem, mataram-na suponho. Quem? Ninguém se atreveria. Mas atreveu, porque ela está morta. Que calamidade. Como é que isso aconteceu? Foi o tempo. O tempo? O tempo pois. Passou por ela, enrugou-a e matou-a. A idade não faria tal coisa. Faria pois. Oh, o que perdemos com a idade. A ela, matou-lhe a imaginação.
sexta-feira, 30 de março de 2012
Contas
E tu contas. Vives a contar. A
contar histórias, sonhos, desejos. A contar as horas que passaram, os minutos
que faltam. As pessoas que vão chegando, aquelas que já partiram. Os erros que
cometeste, aqueles que não queres repetir. Contas e contas porque tens de
contar. Contas as paragens que foram e as que faltam. Contas os degraus que
subiste e os que subirás. Contas também os que desces e aqueles que não queres
descer. Contas o que pensas e o que devias pensar. Contas porque tens de
contar. Contas as páginas, os
parágrafos e as linhas. Contas as palavras, as sílabas e as letras. Porque
contas? Porque tens de contar. E no fim, conta com o importante. Porque se é
para contar, então conta comigo.
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